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Crítica
O último filme de Josef von Sternberg, datado de 1953 e rodado em estúdio no Japão, adapta uma história real, contada em livro por uma das pessoas que a viveu. Em 1944, um grupo de 30 militares japoneses sobreviveu ao bombardeamento dos navios em que seguiam por aviões dos EUA, e foram dar a uma ilha isolada no Pacífico, Anatahan, onde viviam apenas uma bonita rapariga e o capataz de uma plantação de copra abandonada. Ficaram lá durante sete anos até serem resgatados após a II Guerra Mundial, que não sabiam que tinha acabado.
Em parceria com Tatsuo Asano, Josef von Sternberg escreveu o guião de A Saga de Anatahan usando como referência o livro de Mishiro Maruyama, um dos sobreviventes, fazendo algumas alterações à história original, como a redução dos participantes para 13 homens e uma mulher, chamada Keiko (interpretada por Akemi Negishi, que viria depois a entrar nalguns filmes de Akira Kurosawa) e não Kazuko, como a verdadeira.
O realizador reconstituiu cuidadosamente a atmosfera tropical e a selva da ilha em estúdio, em Quioto, dado que seria problemático, penoso e caro ir rodar no cenário original; e trabalhou longa e arduamente com os actores, quase todos vindos do teatro Kabuki. Como não falava japonês, von Sternberg concebeu um storyboard detalhadíssimo e muito original, usando, um sistema de cores e contendo indicações muito precisas para aqueles se orientarem, e garantir a continuidade “psicológica e dramática” de cada cena, bem como da história no seu todo. E assumiu ainda a narração do filme.
Exibido em estreia mundial em 1953 no Festival de Veneza, A Saga de Anatahan não foi particularmente bem recebido. A opinião da crítica também não foi boa, particularmente no Japão, onde a fita foi muito atacada, pelo seu “exotismo”, por estereotipar os japoneses, por não estar em sintonia com os sentimentos destes no pós-guerra, ou por von Sternberg ter tido o “mau gosto” de filmar uma história com características tão degradantes. Até a prestigiada e influente revista de cinema Kinema Junpo, a mais antiga do Japão (começou a ser publicada em 1919), e uma das mais antigas do mundo, se atirou a A Saga de Anatahan com unhas e dentes. Mas o filme, que foi pouco visto em vida do realizador (von Sternberg morreu em 1969, aos 75 anos) também teve os seus defensores, caso de François Truffaut e Jean-Luc Godard. E era o favorito de Jim Morrison e Ray Manzarek, futuros Doors, quando estudaram Cinema na Universidade de Los Angeles e Josef von Sternberg lá deu aulas, entre 1959 e 1963. Com o tempo, A Saga de Anatahan foi sendo reconsiderado e reapreciado, acabando por ganhar os favores dos cinéfilos de todas as latitudes e estatuto de filme de culto – e também a ser devidamente contextualizado na filmografia de Josef von Sternberg.
É esta obra singularíssima, dotada de um fascínio desconcertante e que escapa a rótulos e classificações, que se estreou finalmente em Portugal, 73 anos após ter sido filmada. A Saga de Anatahan foi apenas visto no nosso país incluído em ciclos ou em sessões avulsas na Cinemateca ou na Fundação Gulbenkian.
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